Em Bom Jesus, cada esquina parece guardar um livro aberto de histórias e memórias. As páginas são paredes, as janelas guardam os intervalos da narrativa e o tempo escreve devagar, com a caligrafia da chuva.
Na fotografia, três prédios partilham a calçada, na rua Buarque de Nazareth. Cada um tem sua maneira de receber a luz, de alcançar o céu e de permanecer diante de quem passa. Suas fachadas permitem imaginar épocas e reconhecer influências, embora as datas exatas ainda dependam da descoberta de documentos, fotografias antigas ou registros de construção.
O grande sobrado da esquina domina a paisagem com uma elegância serena. Sua fachada curva acompanha o encontro das ruas, conduzindo o olhar de uma face à outra. No alto, a platibanda desenha pequenos degraus contra as nuvens; abaixo, as janelas altas se repetem, protegidas por discretas projeções de concreto.
O conjunto sugere uma arquitetura de influência art déco, em versão simplificada, marcada pela geometria dos arremates, pela contenção dos ornamentos e pelo tratamento arredondado da esquina. Como hipótese visual, sua construção, ou a configuração atual de sua fachada, poderia situar-se entre as décadas de 1930 e 1950. As venezianas de madeira acrescentam uma intimidade doméstica à firmeza das linhas: por trás daquela geometria, houve cortinas, vozes e manhãs começando.
É um edifício que parece conhecer o valor da sombra. Sob a longa marquise, podemos imaginar o abrigo de uma conversa, a espera de uma chuva passar, o pequeno descanso de quem atravessava a cidade a pé. Hoje, as portas metálicas fechadas emprestam à cena uma quietude de domingo.
Ao seu lado, a construção mais baixa apresenta outra voz. A platibanda recortada lembra pequenas ameias, enquanto os relevos verticais alongam a fachada estreita. Sua composição sugere uma linguagem híbrida, com possíveis reminiscências ecléticas de inspiração medieval e elementos geométricos próximos do art déco.
O coroamento, isoladamente, não permite afirmar que se trate de um exemplar neogótico.
Para essa fachada, uma faixa possível seria entre as décadas de 1920 e 1940, também como estimativa estilística. Seu corpo pode ser mais antigo, e o desenho que vemos pode ter surgido numa remodelação. Existem construções que atravessam os anos assim: conservam a antiga morada por dentro e recebem, por fora, o desejo de outro tempo.
As manchas escurecem as paredes e acentuam seus sulcos. A chuva encontrou caminhos próprios naquele reboco. Ainda assim, os detalhes permanecem legíveis, como palavras antigas cuja tinta perdeu a força, mas conservou o sentido.
Mais ao fundo, o terceiro prédio retoma a altura. As janelas estreitas e alinhadas, os frisos verticais e o coroamento em pequenos ressaltos sugerem uma arquitetura de influência art déco, de composição sóbria e verticalizada. A repetição dos elementos organiza a fachada e faz o olhar subir, num ritmo silencioso.
Por essas características, sua construção ou remodelação poderia ser situada, provisoriamente, entre as décadas de 1930 e 1950. É uma possibilidade que a imagem oferece, à espera de que a memória documental da cidade venha lhe dar maior precisão.
Vistos juntos, os três edifícios mostram como as linguagens arquitetônicas se encontram nas ruas. Uma curva suaviza a esquina; um recorte no alto recorda antigas muralhas; uma sequência de vãos organiza a luz. Há parentescos entre eles, mas cada fachada preserva seu próprio temperamento.
Por cima, os fios atravessam o céu em muitas direções. No chão, as pedras do calçamento recebem a claridade do dia. Entre esses dois desenhos, os prédios continuam ali, sujeitos à chuva, ao uso, às reformas e ao esquecimento.
Quem se detém diante deles percebe quanto trabalho humano cabe numa parede: a escolha de uma janela, o cuidado com um friso, a intenção de dar beleza ao lugar onde a vida aconteceria. Antes de serem paisagem, aquelas fachadas foram decisões, desenhos, tijolos assentados por mãos que talvez já não saibamos nomear.
A memória de uma cidade começa nesse instante em que levantamos os olhos.
Reconhecemos uma forma que sempre esteve ali e, pela primeira vez, enxergamos o gesto de quem a imaginou.
Na rua Buarque de Nazareth, três fachadas ainda oferecem esse encontro. Basta diminuir o passo.
O Norte Fluminense


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