Quem passa pela rua Aristides Figueiredo é levado a erguer os olhos para o alto do morro. Lá está a Capela Nossa Senhora do Rosário, no cemitério local, com suas cores realçadas pela pintura realizada pela Prefeitura Municipal. O verde acompanha os contornos da fachada, emoldura a porta e sobe até perto da cruz. Sob o céu de nuvens, a pequena capela parece guardar uma claridade própria, dessas que encontram abrigo nas coisas cuidadas com amor.
Às vésperas de Finados, há um movimento delicado entre as sepulturas. Flores já foram depositadas sobre alguns túmulos. Pessoas chegam com baldes, escovas e panos, inclinam-se sobre as pedras, retiram as folhas, lavam as inscrições. A água escorre pelo mármore e pelo granito como se procurasse devolver nitidez também às lembranças. Amanhã, outros passos virão. Hoje, o carinho se adianta e prepara o lugar do encontro.
Andar pelas quadras onde repousam nossos mortos acaba se tornando uma espécie de passeio pelo jardim das saudades. Cada nome abre uma passagem para um tempo: uma cozinha com cheiro de café, uma conversa à porta, uma mão que segurou a nossa. Entre duas sepulturas, podemos atravessar muitos anos. Basta reconhecer um sobrenome para que uma rua inteira da infância volte a se povoar.
Sobre os túmulos, as esculturas dão forma ao que tantas vezes não conseguimos dizer. Suas figuras permanecem expostas à chuva, ao sol e à lenta passagem das estações. Há uma comovente fragilidade nessa permanência: embora feitas de matéria resistente, parecem recolher a vulnerabilidade de quem as contempla. Aproximamo-nos delas trazendo perguntas que a pedra recebe em silêncio.
Na Pietà, a mãe sustenta o filho morto. O peso daquele corpo repousa sobre seus braços, mas alcança quem olha. Ali se concentra uma dor que atravessa os séculos e encontra, em cada família, uma maneira particular de existir. Diante dessa imagem, pensamos nas mães que conheceram a despedida mais difícil. O colo esculpido conserva o gesto de amparar quando já não é possível impedir a partida.
A imagem de Nossa Senhora prolonga essa presença materna entre as sepulturas. Seu vulto oferece à paisagem a lembrança de um cuidado que desejamos sem fim. Quem deixa flores a seus pés talvez leve consigo uma oração antiga, aprendida em casa, pronunciada por alguém cuja voz agora só pode ser ouvida por dentro.
Na figura de Jesus, a fé encontra um rosto para a esperança. Sobre a pedra funerária, sua presença acompanha os nomes, as datas e o intervalo em que coube uma existência inteira. Diante dela, o visitante pode demorar um pouco mais, rezar baixinho, confiar a Deus aquilo que ainda dói. As esculturas participam, assim, das conversas mais íntimas daquele lugar, conversas em que os lábios às vezes nem se movem.
Enquanto isso, alguém termina de lavar um túmulo. Passa o pano sobre o nome, ajeita as flores, afasta-se alguns passos para conferir o cuidado. Esse pequeno trabalho tem a delicadeza de quem arruma a casa para receber uma pessoa querida. Há muito amor numa escova que percorre a pedra, num vaso colocado com atenção, numa visita que se repete apesar dos anos.
Do alto do morro, a Capela Nossa Senhora do Rosário acompanha esses gestos. Sua pintura renovada acolherá os visitantes de amanhã, entre flores, preces e recordações. E quem descer de volta à rua Aristides Figueiredo talvez carregue, junto da saudade, a memória daqueles braços de pedra: o colo da mãe, a presença de Maria, a esperança em Cristo. Imagens que permanecem no jardim, enquanto seguimos levando nossos mortos pela vida.
O Norte Fluminense








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