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terça-feira, 18 de novembro de 2025

DE BOM JESUS DO ITABAPOANA À CINELÂNDIA: A TRAJETÓRIA RADICAL DO CINEASTA AFRANIO VITAL

Abraçar a morte: o cinema de Afranio Vital.
A Sessão INDETERMINAÇÕES - Abraçar a morte: o cinema de Afranio Vital está em cartaz no cinema do IMS Paulista em novembro
“Eu não existo”, afirma o cineasta Afranio Vital à escritora e crítica Andrea Ormond, em fevereiro de 2015, numa entrevista publicada no blog Estranho Encontro. “Quem existe é o Cacá Diegues, o Glauber [Rocha], o Nelson Pereira [dos Santos]. Eu não existo”, ele repete em texto do livro Esfinge negra – A história do cineasta Afranio Vital, organizado por Carlos Ormond, datado do ano seguinte. No curta Dois Nilos, de Samuel Lobo e Rodrigo de Janeiro, lançado em 2024, torna a dizer, sentado em meio à praça da Cinelândia, cemitério de cinemas do Rio de Janeiro: “Meus filmes não existem, não. Isso tudo é uma grande ficção”.
A morte, se antes presente na obra do cineasta negro como um tema a ser desafiado e encarado de maneira frontal, hoje se traduz, ainda, no silêncio programado em torno de sua filmografia. Realizador de três longas-metragens e mais de uma dezena de curtas em meio à rebeldia anárquica dos anos 1970 e 1980, sua cinematografia foi negada à história do cinema brasileiro, literalmente jogada à boca do lixo – antes sua grande e inspiradora substância – e às chamas da ausência de políticas de preservação audiovisual que ainda lutam para se estabelecer no país.
Ao longo das últimas décadas, títulos como Os noivos (1979), Longa noite do prazer (1983), e Estranho jogo do sexo (1983) experenciaram uma morte física, “culturalmente assassinados”, para usar um termo do próprio Vital. Com filmes capazes de perturbar idealizações – discursivas, narrativas, cinematográficas – dos pressupostos que ora estabelecem uma base para a definição de um cinema negro brasileiro, o cinema voyeurista, melancólico e erótico de Afranio Vital nos chama atenção pelo seu lugar de fronteira e por fazer da linguagem cinematográfica objeto de vício e paixão.
Não são, no entanto, esses adjetivos que poderiam simplesmente dar conta de uma obra tão vasta. Os quatro títulos que exibimos nesta quinta edição da Sessão INDETERMINAÇÕES, sendo dois deles realizados pelo próprio Afranio Vital na década de 1970, oferecem outros elementos para narrar e investigar essa história ainda desconhecida. Convocamos, por assim dizer, a abraçar o abismo desse cineasta, nascido em 1948 na cidade interiorana de Bom Jesus do Itabapoana (RJ) – porém formado “carioca da gema”, na cabeça e no trato –, perseguindo os interesses de sua produção curta-metragista e traçando um diálogo com outras de suas ocupações profissionais no cinema; ora retratista, ora retratado, ora montador, mas sempre fantasmagoricamente presente.
Em Pérola negra (1979), filme de Reinaldo Cozer, um de seus grandes parceiros na produção cinematográfica, a montagem crua de Afranio Vital faz transbordar a poesia e a juventude de Luiz Melodia. Ataulfo Alves, realizado pelo cineasta negro em 1973, é o aceno do “carioca” ao documentário biográfico, em que a voz rara em primeira pessoa do sambista se entrelaça com geografias de sua trajetória e o som imorrível da cuíca. Voltamos ao presente com Dois Nilos (2024), de Samuel Lobo e Rodrigo de Janeiro. O sopro de vida que o filme gerou em torno da figura de Afranio Vital, no passado recente do cinema brasileiro, é desafiado a todo instante pelo biografado. Indo fundo em suas contradições, Vital põe em crise o ato memorialista da dupla de jovens realizadores e encontra, no ator Wilson Rabelo, um espelho sedutoramente fraturado. Por sua vez, Antônio Maria (1977), dirigido por Afranio Vital, revigora os fantasmas de toda uma vida, pintando um retrato fragmentado do compositor, reconhecido como um dos “reis do samba-canção”.
A sessão foi comentada por Afranio Vital, que participou de uma conversa com o público mediada pelos programadores e cofundadores da INDETERMINAÇÕES, e contou com a estreia das versões restauradas digitalmente em 4K de Ataulfo Alves e Antônio Maria, fruto de uma parceria entre a Plataforma e o Cinema do IMS Paulista, com apoio cultural da Mnemosine Serviços Audiovisuais e do Laboratório Mapa Filmes do Brasil/Link Digital. O processo de restauração ocorreu na cidade do Rio de Janeiro e contou com a coordenação técnica da preservadora audiovisual Débora Butruce, com materiais preservados pelo Centro Técnico Audiovisual (CTAv) e pela Cinemateca Brasileira.
O programa é acompanhado pelo ensaios “O nosso nó”, escrito pelo crítico e professor Juliano Gomes para a Revista de Cinema do IMS, e por uma entrevista com Afranio Vital, realizada em janeiro de 2025 pela pesquisadora Lorenna Rocha. A vinheta da sessão é assinada pelo cineasta do Capão Redondo Lincoln Péricles, vulgo LK. Em coletivo, as obras com Afranio Vital driblam e anunciam estratégias de mortes inevitáveis e desejadas, reanimando arquivos e memórias que “deveriam” ser esquecidos. Um estranho convite para saborear o fim, que pode prenunciar, no entanto, múltiplos começos.

Blog do Cinema

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